Virei fã dessa atriz. Sempre me surpreendo com as pessoas. Tão linda, tão sábia!
SEM LIMITES
Instigante, surpreendente, única. Ana Paula Arósio entra na sua fase mais amadurecida sem perder o ímpeto – nem a ternura.
Thales Guaracy
A casa de Ana Paula Arósio em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, não muito longe do Projac, onde ela grava a novela Páginas da Vida, mostra um pouco como funciona sua compulsão por fazer sempre mais. Quando comprou o imóvel, com um jardim de cerca de 600 metros quadrados, a atriz mandou arrancar tudo o que era verde. Plantou tudo de novo, sem a ajuda de um arquiteto ou paisagista. "Outro dia chegou em casa a minha depiladora e eu estava de enxada na mão", diz, divertida. Dedica-se especialmente às orquídeas. "Descobri que tenho mão para elas", explica. "Outras plantas, sem querer, eu mato. Boto água demais ou de menos, adubo mal." Depois de repovoar o jardim, inventou um laguinho. "Queria ter umas carpas", conta. Trouxe do seu sítio no interior de São Paulo esterco de carneiro, contribuição pessoal para a inovação da piscicultura. "As carpas comeram aquilo e não foi nada bom", diz, meneando a cabeça. Os peixes entraram em colapso como numa peste bíblica - ela conseguiu salvar cinco, pescando-os com a rede da piscina e colocando-os num balde. "Chamei um veterinário e agora já sei como cuidar delas", diz.
"HOJE SEI MAIS O QUE gosto E O QUE não gosto. POR ISSO VOU EMBORA LOGO QUANDO VEJO QUE ALGO NÃO dará certo. ANTES EU NEM VIA."
Vinda da mesma fonte que a fez abrir caminho na carreira artística, sua vontade de fazer tudo por conta própria às vezes triplica o trabalho - ela mesma admite. Ana Paula não é voluntariosa só na maneira como administra o jardim. Por exemplo, teve o impulso de carregar a mala da assistente de produção das fotos que ilustram esta revista (um cavalheiro intercedeu a tempo). Abraçou um abajur com as pernas com a intenção de facilitar o trabalho da fotógrafa, que queria seu rosto mais perto da luz. ("Não se assustem", avisou.) Ela prefere o método da tentativa e erro a ficar parada, não foge do trabalho e não se preocupa com as convenções, mas amadureceu o bastante para pensar duas vezes - ou pensar melhor - em algumas ocasiões. Sobretudo no que diz respeito aos relacionamentos. "Hoje sei mais o que gosto e o que não gosto", diz. "Por isso vou embora logo quando vejo que algo não dará certo. Antes nem via."
Nos últimos tempos Ana Paula freqüentou várias vezes o noticiário trocando de namorado. Aos 31 anos, porém, parece amadurecer também nessa área e vai derrubando alguns bloqueios. Recentemente, pela primeira vez deu declarações a respeito de Luiz Tjurs, o noivo que em 1996 se suicidou na sua frente com um tiro na cabeça ("Eu lambia o chão por ele", declarou à jornalista Monica Bérgamo, colunista do jornal Folha de S.Paulo). "Isso vai me afetar pelo resto da vida, como tudo o que vivi, para o bem e para o mal", diz ela. "Mas acho que o tempo fez com que eu pudesse olhar para o que aconteceu com mais maturidade e objetividade. Por enfrentar e mais bem entender o meu papel na história, deixei de ser tão passional ou emocional em relação a isso. Deixei também de me defender de relacionamentos, como fazia." Digo por experiência própria que artistas são mutáveis e têm mais dificuldade para se conhecer, o que também dificulta escolher a pessoa certa. Pergunto se o ideal não seria, agora que Ana Paula sabe mais a respeito de si mesma, encontrar alguém mais parecido com ela.
"Escolher a pessoa o mais parecida possível é o que dá menos problema? Acho isso tão difícil..."
Rebato que também achava que não existia ninguém parecido comigo. Até encontrar alguém idêntico. A minha mulher.
Quando Ana Paula ouve isso, inclina-se para a frente. Seus olhos transbordam, como se fossem derramar aquele azul sobre a mesa. Atores que contracenaram com ela, como Reynaldo Gianecchini, já se referiram à sua intensidade em cena comparandoa a vulcões e outros fenômenos naturais. Sinto na pele o que eles querem dizer - realmente, para muita gente pode ser difícil sustentar aquele olhar. De repente, porém, ela o quebra com uma gargalhada.
- Ô, bonitinho! - exclama. - Todo apaixonado!
- Você não acredita em mim?
- Eu acho lindo!
- Eu perguntei se você acredita.
- Eu acredito... no amor.
Digo-lhe que se trata mais do que amor, mas de um amor que dá certo. Ela às vezes se faz de ingênua, momento em que aproveita para fazer perguntas.
- Qual a diferença?
"TODO MUNDO PRECISA DE POUCO PARA SER feliz. AS PESSOAS QUE ACHAM PRECISAR DE muito NA VERDADE NÃO SABEM DO QUE PRECISAM."
- A rotina, ou a vida, muitas vezes estraga o amor. Por isso as pessoas também precisam ter identidade. Como ela parece muito satisfeita com a resposta, levo a conversa para os sinais do seu amadurecimento no cotidiano. "Antes todas as plantas que me eram muito queridas estavam em vasos, no meu apartamento em São Paulo, no do Rio e até no sítio", diz ela. "Quando fui para a minha casa atual, comecei a fincá-las na terra. A Graça [sua empresária, Graça Nascimento] diz que talvez eu esteja querendo criar raízes." Pelo tom, Ana Paula sugere que concorda com isso. No sítio, onde mantém 12 cavalos, dos quais cuida com o carinho de mãe, há uma casa onde possuía um colchão no chão e algumas fotografias de animais nas paredes. Porém, fez na propriedade um chalé do tamanho de um apartamento, pré-fabricado, com uma pequena cozinha, banheiro, sala e um quarto em cima. É o seu pequeno recanto. "Todo mundo precisa de pouco para ser feliz", diz ela. "As pessoas que acham precisar de muito na verdade não sabem do que precisam."
Para Ana Paula, o sítio ainda é o lugar com o qual mais se identifica. "O sítio sou eu." Mas sua visão a respeito tem mudado, como ela. "Eu tinha o sonho de criar 100 cavalos", conta. "Hoje quero ter um número menor, porque sei tudo sobre eles. Meus cavalos nasceram em casa, eu os conheço, os chamo e eles vêm. Estou diminuindo o que está em volta."
Alegre, atenta e bem-humorada, ela procura ser carinhosa com as pessoas que conseguiram atravessar a barreira criada ao seu redor. Com elas usa e abusa de seu adjetivo preferido: "Gotoso!", sempre com uma exclamação. Na sua boca a palavra surge redonda e serve para tudo, com algumas variantes. "Gotôuso", com um "U" formado por sutil movimento labial, adquire um tom condescendente, quase maternal, que surge quando ela quer censurar alguém. Quando fala com as mulheres, pode variar para "Gotóisa!", sem parecer com isso afetação.
Ela ainda faz o estilo esportivo, com o qual se sente à vontade - usa uma calça cinza de alfaiataria Ave Maria, camiseta de ginástica azul e agasalho esportivo cinza da Track & Field. As meias são brancas, com florzinhas, e os tênis Adidas, pretos, com um acabamento brilhante como vinil, da linha Night Runner. Não é, digamos, gênero. Ana Paula acorda às 5 horas da manhã para correr. "Se não fizer isso, não corro. Depois do trabalho não quero saber de mais nada além de descansar, ler e dormir."
Não usa muitos cosméticos além do brilho para ir a festas, embora vá menos a discotecas agora por causa do ritmo de trabalho puxado na novela. Mantém-se o mais despojada possível. Na Globo passa no camarim um produto para eliminar o frizz e definir os cachos. Combinou com Marília Carneiro, figurinista de Páginas da Vida, que manterá na novela seu cabelo cacheado natural. "Primeiro porque tenho preguiça de fazer escova", diz ela. "Segundo porque ela também tem cabelo cacheado e achamos que combinaria com o personagem." Acrescenta, como piada. "É maravilhoso, porque conseguimos provar que as ricas também têm cachos!"
A personagem Olívia, protagonista de Páginas da Vida, é uma jovem rica, casada com um militar, mas independente e que "acredita no amor livre", como ela define. Ao mesmo tempo é religiosa e tem uma boa relação familiar. Não está muito longe da Ana Paula de hoje, mas guarda algumas diferenças. "A Olívia tem mais energia do que eu, é mais histriônica", diz. "Acho que tenho essa alegria, o bom humor dela, mas não sou tão expansiva como a personagem. Ela mostra mais como se sente." Contudo, sente-se bem no papel e acredita que graças a ele pode aprender a expressar-se mais. "Estou gostando da experiência porque sempre fiz mocinhas um pouco mais fechadas, até mesmo na interpretação."
- E no amor livre você acredita?
- Amor livre? - repete, como quem diz "Meu Deus!" - Não!
Ana Paula pode ser muitas, ou outras, em diversas épocas, com diferentes personalidades, como se pode muito bem ver no ensaio fotográfico destas páginas. Dificilmente Ana Paula deixará de ter sua costumeira volúpia, mas continuará a amadurecer e mudar, provavelmente testando alguns limites. Quais, e até que ponto, talvez só ela própria saiba.